Vestidos de Renda

Vestido de Renda

A História da Fabricação de Renda

Mulher posando em um vestido de renda elegante em 1890
Mulher posando em um vestido de renda elegante em 1890

A fabricação de renda (utilizada na fabricação dos vestidos de renda) é um ótimo exemplo de uma indústria que foi influenciada pela vida política e social entre os anos 1500 e 1920 em Flandres (região norte da Bélgica, desde 1830), na Itália, Holanda, França, Espanha e Inglaterra.

O começo

O constante desejo de produzir vestimentas cada vez mais atraentes é responsável pela criação do mais fino e mais caro corte de tecido que hoje chamamos de renda clássica. Os primeiros passos aconteceram no tempo dos faraós, que usavam pedaços de linho com fios coloridos e os construíam em designs geométricos. Os antigos Gregos e Romanos costumavam enfeitar suas togas com cores ou ouro. Um enfeite novo não precisava de nenhum cuidado com suas bordas a principio, mas com o tempo se tornada desgastado e as pontas se soltavam, precisando ser torcidas e costuradas. A renda é derivada da técnica de torcer usada para “concertar” os fios soltos das bordas dos enfeites de tecido. Em Flandres, renda se chama “Kant”, que quer dizer “borda” ou “canto”. Os lugares de origem da fabricação de renda são geralmente considerados como sendo Flandres e Itália.

Renda Branca
Renda Branca

A partir do século XII, Flandres consistia em um grupo de cidades-estado onde a maioria dos aspectos da vida diária estava muito bem estruturada. As cidades eram organizadas por grupos de artesãos que tinham a mesma ocupação. Essas organizações poderosas eram chamadas de “Grêmios” ou “Corporações” e seus representantes ditavam as regras. Cidades como Bruges, Gante, Antuérpia e, em uma menor proporção, Bruxelas, acumularam muitas riquezas plantando linho, transformando-o em cordão de linho e, então, em tecido de linho: o material valioso e mais elegante da época. Quanto mais ricos se tornaram, mais os estados ao redor queriam conquistar e anexas estas cidades.

Então, aconteceu que Joana de Navarra visitou Bruges em 1300 e, emciumada, perguntou ao seu marido, O Rei da França Felipe IV, chamado de O Belo (1268-1314), como era possível que todas as mulheres nas ruas de Flandres estivessem mais bem vestidas do que ela estava. Sendo um homem de ação, Felipe IV imediatamente enviou seus coletores de impostos para as cidades, mas os flamengos de Bruges os perseguiram até que fossem embora. Com raiva, por seu orgulho ferido, o Rei enviou de volta um exército formado quase exclusivamente de nobres franceses sob o comando de Roberto III, o Conde de Artois, tio de Joana, para ensinar uma lição àqueles camponeses de Flandres.

Rainha Isabel II da Espanha - veu e vestido de renda
Rainha Isabel II da Espanha – veu e vestido de renda

O exército francês foi derrotado no dia 11 de julho de 1302, na famosa “Batalha das Esporas Douradas” – até hoje essa data é marcada como feriado nacional na região de Flandres. Os gastos excessivos causados por essa derrota levaram o rei Felipe IV a procurar por novas fontes de dinheiro pra reabastecer seus cofres. Ele começou confiscando os bens de seus prestamistas. Já que ele mesmo devia uma considerável quantia de dinheiro à Ordem dos Cavaleiros Templários, seu banqueiro, ele os declarou hereges, os aprisionou e os sentenciou à figueira, enquanto confiscava todas as suas propriedades.

A terceira atitude tomada pelo Rei Felipe IV teve um impacto direto na fabricação de rendas e sua história: ele também confiscou os bens dos Lombardi, banqueiros italianos. Essa ação foi responsável por fazer com que as principais famílias da Itália e de Flandres se unissem.

Rainha Victoria e seu vestido de renda em 1897
Rainha Victoria e seu vestido de renda em 1897

As cidades italianas também ficaram muito ricas negociando entre o Mediterrâneo, o Mar Negro e outros locais. Eles trocavam jóias, prata e outro por sedas e pedaços de temperos como pimenta e gengibre. Naquele tempo, as rotas de comércio por terra não eram muito seguras, principalmente as que passavam pelo território francês. Uma intensa relação de comércio pelo mar se criou entre as grandes cidades italianas de Génova, Florença e Veneza usando uma rota marítima que passava pelo porto de Bruges, e mais tarde de Antuérpia, em Flandres. Essas cidades também ganharam muitas riquezas com rotas de comercio para o Mediterrâneo, o Mar Negro e outros lugares. Eles trocavam jóias, prata e outro por sedas e pedaços de temperos como pimenta e gengibre. O pai de Marco Polo, Nicolau Polo, e o seu tio Matteo, viajaram até a China e viveram na corte do Grande Kublai Khan. Mais tarde, o próprio Marco Polo veio a se tornar um diplomata aos serviços do Khan. Os italianos podiam pagar pelos tecidos de linho caros produzidos em Flandres. Conhecendo o contexto histórico da época podemos compreender que a grande demanda foi o que fez os enfeites feitos com tecido de linho evoluírem para a renda, e mais tarde no tecido de renda em si. Essa demanda foi rapidamente atendida por essas duas importantes localizações geográficas que citamos.

Grace Kelly em seu casamento vestindo um vestido de renda 1956
Grace Kelly em seu casamento vestindo um vestido de renda 1956

Por volta do ano 1305, diz-se ter chovido muito e intensamente durante muito tempo. Algumas crônicas da época falam de uma chuva que durou um ano inteiro – com resultados trágicos. Os ratos não podiam mais viver ou comer do lado de fora e passaram a morar dentro das casas. Pulgas trazendo a peste negra começaram a viver nesses ratos, e a partir dos ratos chegaram até os humanos se espalhando por toda a população. Essa praga epidemiológica matou mais de 50% dos habitantes da Europa durante os séculos XIV e XV. Como resultados, muitas pessoas, as que podiam pagar por isso, migraram para o sul do continente – principalmente para a Itália – para escapar do tempo úmido e da praga. Muitos dos negociantes de sucesso que foram para o sul estabeleceram ótimas relações de negócios entre a Itália e Flandres. Artistas alemães refletiram em duas pinturas as maravilhosas paisagens italianas. A igreja se tornou ainda mais rica coletando grandes quantidades de dízimos para saldar pecados ou para evitar a praga. A igreja romana se tornou o principal comprador e usuário da renda durante os séculos que seguiram.

Moca mexicana em uma Mantilla preta de renda em 1928
Moca mexicana em uma Mantilla preta de renda em 1928

Voltando às origens da renda: Os fabricantes de renda italianos usavam uma técnica de um único fio, enquanto os de Flandres usavam uma técnica onde os fios eram amarrados à pedaços de madeira, como pequenos carretéis ou laçadeiras, que eram todos usados ao mesmo tempo, apoiados sobre um travesseiro, para torcer e cruzar as linhas e criar o efeito desejado. Isso é renda de carretel, e era inicialmente conhecida como trabalho-de-alfinete.

A relação próxima entre as economias dessas duas áreas também se refletiu no fato de que a renda, criada a partir dessas duas técnicas completamente diferentes uma da outra, é inacreditavelmente parecida.

De 1480 até 1590 foi o período chamado de Geométrico ou Gótico, sem noivas; quando a renda se tornou mais pesada, entre 1590 e 1630, nós começamos a ver mais motivos florais e os pontos cheios começaram a ser chamados de modas ou modelos.

Kate Middleton e seu vestido de casamento em renda
Kate Middleton e seu vestido de casamento em renda

Entre 1630 e 1670, os móvitos continuaram a se desenvolver constantemente e incorporaram não somente os estilos florais, mas também cabeças, figuras, cenas, pássaros em redes ou um cenário completo.

A partir de 1720 até 1780, pequenos buquês, primaveras, flores, nuvens, botões de flores e pontinhos começaram a ser usados em grande quantidade ao longo de uma peça, criando incríveis e belíssimos ornamentos que chegaram a tal perfeição que não poderia mais evoluir.

Por causa das amarras políticas e econômicas entre a Itália e Flandres, fica claro que não podemos tomar com certeza um desses países como o criador e precursor absoluto da fabricação de rendas (e logo, dos vestidos de renda). Ao contrário, essa criação deve ser atribuída aos dois países e à sua conexão e união de suas culturas.

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